Julho 01, 2009

Evite os dez erros que transformam sucesso em fracasso.



Professores e consultores ouvidos pelo Universia contam quais são os principais erros cometidos ao longo da gestão de carreira e dão dicas de como evitar problemas. Confira os dez erros que costumam atrapalhar o desenvolvimento profissional desde o estágio até a aposentadoria.

Desconhecer habilidades e competências

"Muitas vezes, a pessoa consegue emprego por indicação ou oportunidade, cai num setor específico e começa a trabalhar. Dez anos depois, está insatisfeita e improdutiva. Ao analisar, vê que não tinha perfil para a área, que tinha habilidades e competências para outro segmento. E mais: ao fazer essa avaliação apenas no início da carreira, o resultado pode não ser tão preciso, pois à medida que o profissional ganha experiência, as habilidades ficam aparentes"

Moacyr Castellani, especialista em coaching pessoal da Metacoaching

Não ter planejamento estratégico

"Profissionais sem plano estratégico da carreira são pegos desprevenidos em momentos de crise, sem saber o que fazer porque não pensaram em construir um planejamento. Alguns executivos se aposentam e acreditam que basta abrir um negócio próprio ou uma consultoria para se manter, mas eles fecham no primeiro ano porque não têm conhecimento técnico daquilo que se propõem a fazer. O erro maior consiste em não detalhar o plano. Isso significa definir o objetivo estratégico principal, mas não os indicadores e as iniciativas de melhoria ou o conjunto de atividades que têm de ser feitas para alcançar esse objetivo"

Eduardo Carmello, consultor organizacional especialista em gestão estratégica e diretor da Entheusiasmos Consultoria em Talentos Humanos

Nunca revisar o planejamento

"As pessoas fazem o planejamento e ficam engessadas nele. Quando coloco o planejamento de carreira em prática, descubro que tenho pontos a serem melhorados e habilidades que precisam ser alinhadas às possibilidades da carreira. Além disso, com o tempo, o mundo e as paixões pessoais mudam, novas oportunidades aparecem. E é o movimento em direção à realização do plano e as descobertas que mostram quando e como rever o planejamento. A revisão exige o mesmo que o primeiro planejamento. Ou seja, analisar o mercado e a sinergia da carreira com as tendências e as afinidades"

Janaina Ferreira Alves, professora e coordenadora acadêmica da pós-graduação em Gestão de Negócios, CBA Logística e CBA Marketing, do Ibmec-RJ

Protelar demais a entrada na área desejada

"Para atuar em determinada área, o ideal é começar o quanto antes, pois quanto mais protelar para redirecionar a carreira mais difícil será. Por isso, mesmo sabendo que é complicado conciliar questões financeiras, muitas carreiras precisam começar no estágio. Então, se a pessoa está num emprego que paga bem, tem de se planejar para buscar um estágio na área dela. Isso vale também para quando se está insatisfeito. Se a pessoa trabalha com algo que não a deixa feliz, é pouco provável que seja bem sucedida. Ao mudar, tem de ter em mente que vai perder algumas coisas para ganhar outras mais para frente. Tem de medir prós e contras e, se os prós parecem favoráveis, mesmo que a médio prazo, tomar a decisão"

Rudney Pereira Junior, gerente de talentos do Grupo Foco

Considerar apenas salário ao mudar de emprego

"Um movimento desses pode dar retorno em curto prazo, mas não significa que, necessariamente, haverá realização ou satisfação profissional. Mesmo porque, ao longo da vida profissional, a pessoa passa a ser percebida pelo encaminhamento que assume. Então, se pautou suas decisões apenas pelo salário, fica difícil de mudar depois. Por isso, tem de pensar na estratégia de carreira e se posicionar de acordo com ela. Além disso, realização financeira não é tudo. É necessário se sentir realizado e motivado pelo que faz. E percebo que pessoas que têm talento e se direcionam pelo que gostam de fazer dificilmente se rendem ao salário"

Marcelo Weguelin, gerente-geral de desenvolvimento de recursos humanos da Philips


Não se identificar com a empresa

"Tem de considerar o ramo de atividades e a identificação com a cultura e os valores da empresa. Eles são importantes porque norteiam as ações. Há ramos com culturas totalmente diferentes. Daí, pessoas que saem de empresas com foco em serviços e vão para empresas financeiras, por exemplo, podem não se adaptar. Por isso, tem de considerar o tipo de produto, o dinamismo de produção e o segmento de atuação. Ou seja, é importante conhecer o que a empresa faz e o que seus profissionais levam em consideração"

Edna Bedani, gerente de desenvolvimento de recursos humanos da Accor Services do Brasil

Deixar de cultivar a rede de contatos

"Cultivar a rede de relacionamentos profissionais é simples. Pode ser com um almoço, happy hour ou por e-mail. Às vezes, você vê uma reportagem na Internet que pode interessar outra pessoa. Mande para ela. É fácil e ajuda a manter o contato. Tem de entender que faz parte da carreira e não é perda de tempo. Muitos profissionais fazem isso só quando perdem o emprego, mas é fundamental manter os contatos sempre. Isso ajuda a encontrar empregos e outras oportunidades. A prioridade é estar próximo de pessoas mais influentes. E não só pelo cargo. Há pessoas que estão mais conectadas, conhecem mais gente. Essas pessoas são fundamentais para manter na rede"

Renato Grinberg, diretor-geral do site Trabalhando.com.br.

Não se qualificar

"Ao deixar de se qualificar, você pára de ganhar ferramentas para as atividades do dia-a-dia e também deixa de ver as posições que poderia ocupar. Sob a perspectiva da empresa, quando avaliamos alguém, consideramos as habilidades da pessoa para assumir a função. É uma questão de empregabilidade, pois conhecimento é algo que ninguém te tira. Assim, tudo o que se aprende pode ser usado depois, no seu negócio, para dar aula. Se capacitar intensivamente talvez seja a coisa mais inteligente que alguém possa fazer."

Úrsula Angeli, gerente de recursos humanos e desenvolvimento da Whirpool Latin America

Esquecer a família

"Quem fica obcecado pela carreira, pelas metas e desafios, começa a colocar o coração no dinheiro e esquece do que é realmente relevante. Aquilo que estabiliza para que cada um tenha uma carreira vencedora. É impossível sentir-se bem sem estar tranqüilo com a família. Às vezes, tem resultado na carreira, mas é muito curto e a vida cobra caro, pois ele não consegue manter o desempenho depois. Um dos grandes paradoxos das empresas é, num momento de crise, exigir muito dos profissionais, mas, ao mesmo tempo, dar benefícios e bônus para manter os profissionais. É importante equilibrar vida pessoal e profissional. Têm de deixar algum tempo de qualidade para a família, mesmo que seja um tempo menor"

Daniel Kroeff, professor do MBA em Gestão de Pessoas da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

Não se preparar para o futuro

"Entre os 32 e os 45 anos, o profissional vive a fase em que é mais visto e reconhecido pelo mercado. É quando faz investimentos financeiros na carreira, por meio de cursos de idiomas e MBAs, alcançando cargos mais bem posicionados. É também nessa fase que precisa se preocupar com o futuro, desenvolver investimentos ou formas de remuneração no futuro. Seja ao pensar num negócio próprio ou ao se preparar para ser professor ou consultor. Quando se aposenta, na chamada fase da colheita, ele não necessariamente trabalha para colher resultados, mas sim pela realização profissional. Afinal, já deve ter planejado o lado financeiro"

Regina Izabel Cadelca, consultora de recursos humanos da Catho

Fonte:http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?materia=17788


Revista Educativa, ano II, nº 19.
Meu artigo: Controle remoto nas mãos de crianças e adolescentes?

Junho 09, 2009

Distúrbios de aprendizagem



Num dia você é chamada à escola de seu filho por seu comportamento agressivo e desatento. No outro, percebe uma pequena deficiência na fala e na escrita do pequeno. Sem contar que ele não quer mais ir à escola e, quando o faz, parece apático ao que está sendo ensinado dentro de sala de aula. Talvez o baixinho faça parte dos 20% de crianças brasileiras (segundo dados do Ministério da Educação de 2007) que apresentam algum déficit de aprendizagem.

As dificuldades de aprendizado são resultado de diferentes fatores: problemas financeiros, brigas no ambiente familiar, métodos de ensino ultrapassados, problemas neurológicos, auditivos, visuais e outros. Como identificar e tratar o problema para não impedir a aquisição do conhecimento e garantir o saudável desenvolvimento infantil?

"Os distúrbios e dificuldades de aprendizagem caracterizam-se por alterações significativas na aquisição e uso da audição, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas e têm sido uma das principais causas da ida de crianças ao psicólogo já que 'não aprender' tem repercussões emocionais e na autoestima da criança", explica a pedagoga e conselheira tutelar Janaína Elias. Nem sempre identificá-los é tarefa fácil: "Geralmente, a dificuldade se apresenta de forma gradativa. Por isso, a atenção de pais e educadores faz-se tão importante", alerta a pedagoga.

Investigando as deficiências

A única maneira de reverter o processo de déficit de aprendizagem é buscar as suas reais causas. São diversos os fatores que influem na aquisição de conhecimento. "Motivos de ordem psicológica, econômica, neurológica, social e até mesmo ambiental interferem de forma sintomática na construção da personalidade do indivíduo, que se dá até os sete anos de idade, podendo influir em seu aprendizado", revela Janaína.



Crianças com dificuldades para fixar conteúdos podem mudar seu comportamento, variando seus sentimentos ao extremo. Podem, por exemplo, tornar-se agressivos ou chorões

Problemas visuais e auditivos, brigas constantes entre familiares, métodos ultrapassados de ensino e, até mesmo, problemas de adaptação escolar podem levar ao desinteresse e às dificuldades de aprendizagem. "Por isso é tão comum a criança sentir dificuldade na troca de escolas e na passagem para o 1º ano e o 5º ano do Ensino Fundamental, quando há uma mudança significativa em toda a metodologia de ensino", explica a especialista.

Para a pedagoga, a massificação do ensino tem contribuído para o aumento de casos de crianças com dificuldades de aprendizado. "Não é que o fato vá trazer ao aluno uma dislexia ou um autismo. Mas certamente trará desmotivação, desinteresse, sentimento de incapacidade", afirma a pedagoga "Existem várias etapas no processo de aprendizagem, mas uma delas é fundamental: a motivação. A questão é como se motivar numa sala sem atrativos, com quase cinqüenta alunos dentro", indaga Janaína.

Ainda que diferentes causas levem a diferentes tipos de dificuldades de aprendizagem, os sintomas podem ser muito semelhantes. "O desinteresse pelos estudos, o isolamento do restante dos alunos, a inibição ou a agitação, o interesse por atividades mais lúdicas, o relaxamento com material didático são as principais manifestações de quem pode estar sofrendo com uma dificuldade em aprender", afirma Janaína que pede aos pais que também fiquem alerta às mudanças comportamentais: "Crianças com dificuldades para fixar conteúdos podem mudar seu comportamento, variando seus sentimentos ao extremo. Podem, por exemplo, tornar-se agressivos ou chorões".

A importância do tratamento

Descobrir e tratar as causas que levam às dificuldades e distúrbios de aprendizado é de extrema importância já que, além da baixa autoestima, a falta de tratamento pode levar a um ciclo vicioso. "A criança sente-se inferiorizada ao ver que seu amiguinho está aprendendo, participando das atividades, sendo elogiado, ganhando notas boas e ela não. Isso cria uma aversão à escola e deixa duas alternativas ao pequeno: ou ele não quer mais ir à escola ou vai para fazer bagunça, comprometendo ainda mais sua concentração e seu desenvolvimento cognitivo", adverte Janaína.

A fisioterapeuta Ana Paula Rodrigues (39 anos) sabe bem o que é isso. Seu filho Vitor (10 anos) sofre de dislexia e ano passado começou a ter problemas na escola. "Uma vez ele chegou em casa dizendo que era 'burro', pois todas as crianças aprendiam menos ele. Foi quando a escola me chamou, pois ele não queria mais fazer as leituras que a professora mandava e estava cometendo muitos erros ao escrever", conta Ana Paula. Ela procurou o apoio de uma psicóloga e de uma fonoaudióloga. "Não tem sido nada fácil, sobretudo, porque meu filho anda desmotivado na escola, mas tenho fé que com força de vontade tudo vai se resolver", afirma Ana Paula.

O tratamento só é eficaz quando há uma parceria entre a escola e a família. "Por isso, aconselhamos os pais ou responsáveis a se dirigirem à coordenação da instituição de ensino para expor o problema a fim de buscarem juntos uma solução", justifica Janaína. Quanto aos pais, é importante que aceitem que a criança está encontrando problemas em aprender. "Observamos, constantemente, que crianças de fácil tratamento esbarram na não aceitação do diagnóstico pelos pais, por acreditarem que se trata de um déficit de inteligência. Isso acaba por impedir a busca imediata de profissionais que possam acompanhar e cuidar dessas crianças", alerta a especialista.

Além disso, é um erro afirmar que a criança que hoje apresenta uma dificuldade/distúrbio de aprendizagem será um adulto mais ou menos inteligente. A história nos conta que a escritora Agatha Christie, o cientista Albert Einstein e os pintores Leonardo DaVinci e Pablo Picasso eram disléxicos. Quando diagnosticado a tempo, é possível reintegrar a criança ao processo de aprendizado sem nenhum prejuízo.

À escola também é reservada função especial de zelar pelo aprendizado da criança, fazendo desse processo o mais prazeroso possível. "A instituição de ensino deve ter a preocupação de inovar a todo tempo, de trazer o momento da aprendizagem como algo prazeroso. O aluno precisa gostar de estar na escola. Como dizia o educador Paulo Freire: 'A escola tem que ser um espaço onde se aprenda mais que ler e escrever, que se aprenda a viver, a amar'", enfatiza Janaína. Para a especialista, a leitura pode ser uma grande ferramenta de estímulo à criança. "Se uma criança tem a possibilidade de (geneticamente) ser disléxica e, desde a primeira infância tem a leitura estimulada, esse fator irá colaborar na hora do tratamento".

Vale lembrar que pais e educadores não devem corrigir o aluno com frequencia perante terceiros. "Estamos tratando de crianças que estão construindo a sua personalidade, portanto, não se deve menosprezar e usar essa dificuldade para constranger, discriminar e trazer essa criança a vexame", adverte Janaína. Além de fazê-la sentir-se inferior, ela pode acabar desenvolvendo uma timidez e uma vergonha excessiva ao falar, ler e escrever. Ao contrário, deve-se estimular o pequeno a enfrentar o problema, superando suas limitações.

Além da família e dos professores, o tratamento costuma envolver uma equipe multifuncional formada por fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos e, em alguns casos, fisioterapeutas. "São eles que adotam programas que fazem com que os resultados de melhoria ocorram de forma consciente e progressiva", justifica Janaína. Em casos mais sérios se pode recorrer a medicações.

Principais distúrbios de aprendizagem e tratamento

São inúmeros os problemas de aprendizado. Alguns deles se tornaram mais conhecidos e frequentes no ambiente escolar. Conheça seus sintomas e formas de tratamento.

Dislexia: é um distúrbio de aprendizagem relacionado à forma que o indivíduo percebe e processa letras, números e símbolos. Os sintomas costumam ser diferentes na primeira infância (0 a 3 anos) e na chamada segunda infância (4 a 6 anos). "Os mais novinhos apontam um atraso no desenvolvimento motor desde a fase de engatinhar, sentar e andar e também uma deficiência na aquisição na fala, desde o balbuciar ao pronunciar das palavras. Já os mais velhos costumam apresentar lentidão na realização de seus deveres bem como inventam, acrescentam ou omitem palavras ao ler e escrever e não gostam de fazer leitura em voz alta", revela Janaína.

TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção): é um transtorno ligado ao comportamento do indivíduo. Pode estar relacionado a fatores genéticos ou externos. "O uso de substâncias psicoativas na gestação, complicações no parto e falta de oxigênio para o bebê, retardo mental, estresse emocional e intoxicação por chumbo são fatores que podem levar ao TDAH", afirma Janaína. Os sintomas mais comuns são: "Impulsividade, instabilidade emocional, falta de atenção, fala em demasia e agitação nos pés e mãos", esclarece a especialista.

Distorgrafia: caracteriza-se por um grande número de erros ortográficos. "Costuma ser diagnosticada após o 3º ano do Ensino Fundamental, quando a criança já deve dominar a ortografia e sua relação com sons e palavras", explica Janaína. "Os sintomas mais comuns são pobreza no vocabulário, acarretando a elaboração de textos pequenos e pobres de informações, falta de vontade de escrever, dificuldade e coordenação das frases, troca de grafema", exemplifica a pedagoga.

Discalculia: é um distúrbio neurológico onde o indivíduo apresenta grande dificuldade com números. "A criança tem problemas em operações matemáticas, conceitos, fórmulas, contagem, sinais numéricos e outros", esclarece Janaína.

Autismo: é um transtorno que compromete o desenvolvimento psiconeurológico afetando a comunicação e o convívio social. "Atinge geralmente crianças do sexo masculino e suas causas ainda são desconhecidas, mas estudos apontam para fatores genéticos, toxina, poluição e infecções virais", afirma Janaína. "Crianças com autismo parecem surdas, não estabelecem contato com os olhos, agem de forma indiferente ao que acontece ao seu redor, são insensíveis à dor e possuem dificuldades de relacionamento com outras crianças", explica a especialista. "O tratamento dá-se através de medicamentos capazes de reduzir a hiperatividade e há escolas especializadas para quem apresenta esse tipo de distúrbio", esclarece a pedagoga.

Afasia: é um distúrbio na percepção (compreensão) e expressão da linguagem. "Dá-se quando há perda da linguagem adquirida (insuficiência vocabular) de maneira normal e progressiva. Geralmente, é causada por lesão no sistema nervoso central (AVC, Traumatismo Craniano etc.)", explica Janaína. "Os sintomas são dificuldade nas articulações das palavras, uso excessivo das palavras 'isso' e 'aquilo' por dificuldade de se expressar e dificuldade na leitura", exemplifica a pedagoga.

Por Luana Martins
Fonte: http://msn.bolsademulher.com/familia/materia/disturbios_de_aprendizagem/81782/1

Televisão, a guerra perdida



A TV induz à passividade, uma situação nada recomendada às crianças, especialmente em seus primeiros anos de desenvolvimento. Não seria útil sequer para adultos. Difícil, senão impossível, é combater o seu uso.

Os meios eletrônicos e o seu impacto sobre a educação têm no professor Valdemar W. Setzer, da Universidade de São Paulo, um dos seus mais obstinados críticos. Em seu intenso trabalho de pesquisa distribuído por muitos artigos e livros sobre o assunto, ele estuda a influência que a TV, o computador e os jogos eletrônicos exercem especialmente sobre as crianças. O aviso estampado em seu site não deixa dúvidas quanto às posições do autor: “Deixem as crianças serem infantis, não lhes dêem acesso a TV, jogos eletrônicos e computador!”.

Baseado nos princípios da pedagogia Waldorf, desenvolvida pelo austríaco Rudolf Steiner em 1919, e hoje utilizada em mais de 800 escolas pelo mundo, Valdemar é taxativo: não esperem da TV qualquer contribuição educativa. Isto porque, diante da telinha, as imagens chegam prontas, sem induzirem a qualquer esforço mental. A velocidade e o bombardeio constante de imagens impedem que o telespectador desenvolva qualquer tipo de raciocínio. No processo educativo, o aprendizado resulta de uma atividade interior, da associação de idéias, da contextualização daquilo que se aprende. Na TV, as imagens já chegam prontas e não exigem de quem as assiste qualquer esforço de associação, atuando, para o professor, como uma “antítese da educação”. A indução à violência é outro ponto que depõe contra a TV, segundo Valdemar Setzer, respaldado nos resultados de ampla pesquisa científica sobre o assunto.

Mas a “máquina de fazer doido”, como já se referia à TV o cronista Stanislaw Ponte Preta, nos anos 60, faz mal não somente às crianças, “mas a todas as pessoas”, afirma Valdemar Setzer, que diz não sentir falta da TV em seu dia-a-dia (só foi adquirir o primeiro aparelho quando a filha menor já era uma adulta). Com sua presença maciça no cotidiano, a TV determina um formato de show e de espetáculo que acaba extrapolando para todas as formas de manifestações culturais. Outros meios que não estejam sujeitos a esse ditame são considerados “aborrecidos” e “chatos” pelas pessoas.

Na sua crítica ao admirável mundo novo prometido pelos meios eletrônicos, o professor identifica idêntico perigo na relação precoce das crianças com o computador. No contato com esse meio eletrônico, o usuário está preso a uma linguagem formal, lógico-simbólica. Nos seus primeiros sete anos, a criança está submetida a outro universo que privilegia a “imaginação”, o “ritmo” e a “imitação”. A pedagogia Waldorf, adotada por Valdemar Setzer em sua análise, divide o desenvolvimento humano em três grandes fases, ou “setênios”. No primeiro “setênio”, o ensino deveria ser exercido através de “jogos”, “brincadeiras”, “histórias” e “trabalhos manuais simples”. Para Valdemar, pelo menos três conseqüências podem advir desse uso na infância: prejuízo da fantasia, da imaginação e da criatividade, indução de um pensamento rígido e de uma mentalidade materialista.

Um conhecimento mais amplo das suas idéias pode ser obtido com a leitura do seu último livro Os Meios Eletrônicos e a Educação: uma visão alternativa (Ed. Escrituras), um dos 11 que já publicou, além de inúmeros artigos divulgados no seu site pessoal: http://www.ime.usp.br/~vwsetzer

Professor titular aposentado, desde 1992, do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo, palestrante, músico, estudioso e praticante da Antroposofia, Valdemar Setzer foi professor visitante nas universidades do Texas, em Austin, e de Stuttgart, na Alemanha. Nesta entrevista concedida por e-mail, ele fala da influência da TV e dos computadores sobre a educação e não mostra qualquer otimismo quanto ao paraíso futuro prometido pela tecnologia.

Por Paulo Lima

BN - Por que evitar que crianças vejam TV?

Valdemar W. Setzer - Por que TV faz mal a todas as pessoas, especialmente, e terrivelmente, às crianças.

BN - Não há chance alguma de a criança vir a aprender com o que assiste na TV?

V.W.S - Claro que, excepcionalmente, uma criança pode aprender algo com a TV. Mas não é a forma correta de aprendizado, pois educação é um processo lento e participativo. A TV é rápida e totalmente apassivadora, inclusive na consciência e no pensamento. É importante saber-se que a TV não tem efeitos informativo e educativo, caso contrário, seria largamente usada nas escolas.

BN - A televisão é uma instituição onipresente na cultura contemporânea. Os estados nacionais têm perdido sucessivas batalhas para regulamentá-la. Essa é uma guerra perdida?

V.W.S - Sim, pois a TV comercial vende espectadores aos anunciantes; qualquer coisa que atraia os telespectadores é válida dentro desse contexto. Enquanto a mentalidade de selva capitalista imperar, a batalha está perdida. Quanto à TV sem fins lucrativos, esta precisa ter audiência, pois senão não justifica sua existência perante o público e os órgãos financiadores, de modo que cai no mesmo padrão de atrair audiência. Como a TV deixa a pessoa passiva tanto fisicamente (ações) quanto nos pensamentos, sobram os sentimentos. Tudo o que atinge os sentimentos de maneira emocionalmente forte e agitada é bem transmitido e atrai os telespectadores. Daí a transmissão de violência, desde os desenhos animados (terríveis para crianças, pois apresentam sempre uma caricatura do mundo) até crimes, passando por esportes excitantes ou violentos. Se uma cena bucólica, lenta, carinhosa, for transmitida, os telespectadores achá-la-ão “chata” e vão mudar de canal (aliás, nem para isso é preciso mais fazer um esforço...).

BN - A TV interativa pode vir a funcionar como um progresso, rompendo a passividade do atual modelo de tevê?

V.W.S - Não. A interatividade será mínima, e acontecerá durante poucos períodos de uso da TV. Além disso, uma das piores coisas da TV (e dos joguinhos eletrônicos, que são ainda piores do que ela) é que tudo é apresentado sob forma de imagens, impedindo a criação de imagens interiores (como ao ler um livro, por exemplo), isto é, prejudica a fantasia (que deveria ser propriedade de qualquer criança) e a imaginação.

BN - Essa nova TV poderá ser utilizada positivamente na educação?

V.W.S - Não.

BN - Pessoalmente, como o senhor lida com a TV em seu cotidiano? Com qual freqüência costuma assisti-la?

V.W.S - Praticamente nunca. Mudei para um apartamento em 25/11/04 e até hoje nem adaptei os cabos para ligá-la na antena coletiva (TV a cabo ou satélite, nem pensar; eu não gastaria meu dinheiro com algo tão inútil e tão prejudicial). Não me faz absolutamente falta, e nem tenho tempo para perder com ela. Não tive TV até minha filha menor tornar-se adulta. Foi o melhor presente que dei a meus filhos! Por sinal, todos os 4 têm sucesso profissional muito bom, em alguns casos até excepcional.

BN - O senhor vê uma associação entre a violência e a programação mostrada pela TV. A violência não seria fruto de um contexto maior, como falta de perspectiva, desemprego, conflitos familiares etc.?

V.W.S - Claro que não se pode isolar um único fator; o ser humano e a sociedade são entes extremamente complexos. No entanto, devido à minha conceituação sobre os efeitos da TV, estou absolutamente seguro de que ela induz violência. Além disso, há várias pesquisas mostrando que a TV induz violência a curto, médio e longo prazos. Um argumento intuitivo é que o ser humano incorpora todas as suas experiências, em geral de maneira inconsciente ou subconsciente (aliás, padrão da gravação, no telespectador, de todas as imagens e do som da TV). Essas imagens violentas gravadas no telespectador não passam em brancas nuvens, devem obviamente influenciar o comportamento. É por isso que a propaganda na TV funciona – caso contrário não se gastariam os milhões que se gasta com esse meio nessa atividade.

BN
- A cultura do show, do espetáculo, está presente nas atividades culturais de uma forma maciça, e a TV tem estado no centro dessa influência. O senhor acredita que esse é um espírito de época, ou conheceremos um novo estágio civilizacional?

V.W.S - De fato, estamos caminhando para um novo estágio: a degradação completa da dignidade humana. Os meios eletrônicos são um instrumento fundamental nesse processo.

BN - De que forma os processos educacionais podem trabalhar essa influência?

V.W.S - É preciso educar em primeiro lugar os adultos, mostrando-lhes que a TV é a maior tragédia que aconteceu à humanidade (só pelo tamanho já se vê a proporção: metade da humanidade fica bestificada na frente da TV todos os dias!), que ela não é necessária e é altamente prejudicial, principalmente para as crianças. Infelizmente a escola também não ajuda: em geral, quer ser moderninha e embarca em qualquer coisa de alta tecnologia, quando não é mercenária e usa a última para vender matrículas.

BN - O senhor mantém também uma postura crítica em relação ao uso do computador pelas crianças. Por que o desaconselha?

V.W.S - Por que ele força um pensamento algorítmico, isto é, matemático, discreto, expresso por meio de uma lógica simbólica. Isso é altamente prejudicial às crianças, pois é próprio só de adultos. Ele acelera indevidamente o desenvolvimento intelectual das crianças e jovens. Observe-se uma criança usando um computador: ela está numa atitude infantil ou adulta? Como está em meu site: "Deixem as crianças serem infantis, não lhes dêem acesso a TV, jogos eletrônicos e computador!"

BN - O acesso ao mundo informatizado tornou-se o símbolo máximo da modernidade. As crianças são iniciadas cada vez mais cedo no universo dos computadores, da internet. Que conseqüências físicas e psicológicas poderão advir desse batismo precoce?

V.W.S - Isso levaria a muito longe. Os leitores devem ler meus livros e meus artigos. Mas vou adiantar duas conseqüências: indução de um pensamento rígido e de uma mentalidade materialista. É essencial que se reconheça que o uso de computadores e da Internet por crianças não apresenta nenhuma, absolutamente nenhuma necessidade. Qualquer um aprende a usá-los rapidamente na idade adulta ou quase adulta.

BN - Oposições como “apocalípticos x integrados”, sugerida por Umberto Eco, dão conta da complexidade relativa ao uso atual da tecnologia?

V.W.S - Não da minha maneira.

BN - Os defensores da tecnologia vêem um futuro completamente dominado pela convergência de tecnologias inteligentes, com ganhos para toda a sociedade. O senhor mantém o mesmo otimismo?

V.W.S - De modo algum. A sociedade tem melhorado? Claro que temos mais saneamento básico, algo puramente tecnológico, por exemplo. Mas as pessoas estão mais felizes, mais seguras, com mais ideais, com mais perspectivas de realizar seus objetivos, ou estão cada vez mais frustradas com seu trabalho, com sua família e amigos, estão cada vez com mais depressão, estão cada vez mais cometendo suicídios a idades cada vez mais jovens, têm cada vez menos respeito pelos seus semelhantes? O ser humano está se degenerando – e sendo degenerado – rapidamente. É preciso reconhecer as causas profundas dessa situação: os meios eletrônicos são algumas das mais importantes.

Entrevista de Valdemar W. Setzer feita por Paulo Lima, publicada no webjornal quizenal Balaio de Notícias, Edição 74, Aracaju, 13-27/2/2005 e também no jornal eletrônico Observatório da Imprensa, de 15/2/2005 com o título "TV em questão".

Junho 08, 2009

Ideb: o que os números não mostram



Reportagem da revista Época analisa a melhoria da nota das escolas brasileiras no índice que mede a educação básica mas uma visita à cidade que mais evoluiu revela as distorções por trás desse resultado
fonte: revista Época (22.06.2008)
Ana Aranha

Diane da Silva Araújo, de 18 anos, e Jacilene da Silva Cruz, de 25, acordam às 5 horas e caminham 6 quilômetros para chegar ao local onde o ônibus escolar as espera. A trilha que separa o povoado de Tinga da sede de Maiquinique, município do interior do sul da Bahia, é cheia de morros e barrancos. Quando chove, o caminho fica escorregadio e elas encharcadas.

Às 7 horas, as duas chegam à escola. Diane, aluna da 6a série, vai direto para sua sala. Jacilene, na 5a, não entra na escola. "É aula de informática, eu não sei usar o computador", diz. Na sala de informática, os alunos que já sabem navegar entram no Orkut e jogam paciência. "Aqui não tem aula", diz o monitor Silvano Reis. "A idéia é que eles façam pesquisa, mas os professores não pedem. Aí é só jogo mesmo."

Alguns minutos depois, em um banco na porta da escola, as amigas voltam a se encontrar. O professor das duas primeiras aulas de Diane faltou, assim como o da segunda aula de Jacilene. No terceiro horário, finalmente, Jacilene tem um motivo para entrar na escola. Assim que ela senta em seu lugar, a faxineira dá o recado: "Não vai ter aula! A professora está na 6a B!".

Um aluno que nem tinha sentado ainda pergunta ao amigo, como quem custa a acreditar: "É aula vaga de novo?". "É que eu estou com dor de cabeça, vim só para dar prova", diz Oslúsia Coelho, professora de Ciências. Ela deixou de dar a aula da Jacilene para passar uma prova de cinco questões para a turma de Diane. Um aluno a alerta para um erro na prova. "Prestem atenção que não vou repetir", ela diz. "Na questão 3, é 'célula' no lugar de 'bactéria'." A turma termina a prova em meia hora e, antes do intervalo, Diane está liberada da escola.

Para a secretária de Educação de Maiquinique, Cléria Silveira Santos, a desorganização da escola e a falta dos professores estão "dentro da normalidade do país". "Não tenho como controlar quem vai ficar doente", afirma. "Nem sei como dar aula de informática, sou leiga nesse assunto."

Apesar das cenas descritas acima, quem olhar os dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) concluirá que a gestão do ensino em Maiquinique, nos últimos dois anos, é um modelo para todo o país. É essa a paradoxal conclusão do novo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A cidade apresentou o maior salto porcentual de todas as redes municipais de 5a a 8a série. De 2005 para 2007, sua nota pulou de 0,3 para 2,2 - crescimento que fez a cidade atingir e ultrapassar sua meta para... 2011.

''O sucesso é tanto que acendeu a luz vermelha ''

Para José Marcelino de Rezende Pinto, professor de Política e Gestão Educacional na Universidade de São Paulo, a melhora inesperada precisa ser investigada, pois pode ser fruto de uma distorção numérica. "O sucesso é tanto que acendeu a luz vermelha. É hora de suspeitar", afirma. Assim como Maiquinique, outros 1.392 municípios, 40% do total, conseguiram adiantar as metas projetadas para 2009.

O Ideb, lançado no ano passado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, foi anunciado como o primeiro índice capaz de medir com precisão e em escala nacional a qualidade do ensino. Para fixar metas de melhora para cada escola, município e Estado, ele combina a nota da Prova Brasil (exame federal aplicado a cada dois anos) com o porcentual de aprovação dos alunos.

As mudanças bruscas de resultado, no segundo ano de divulgação, sugerem que os números estão evoluindo mais rápido que a prática nas escolas. Na lista de "campeãs" do Ideb (leia o quadro), como na primeira edição, predominam os colégios militares e os ligados às universidades federais. Isso se deve à influência da excelente formação pedagógica dos professores dessas instituições.

Saiba mais

Os municípios que mais evoluíram no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica

Maiquinique havia sido considerado o município com o mais baixo Ideb do país em 2005. Seu crescimento vertiginoso em 2007, porém, não reflete a melhora do desempenho dos alunos. A nota deles na Prova Brasil pouco mudou. O segredo da cidade está no porcentual de aprovação. Em 2005, mais de 90% dos alunos de Maiquinique repetiram de ano ou abandonaram a escola.

Em 2007, o porcentual de reprovação e abandono caiu para 43%. "Pode ser que, em casos específicos, haja distorção pontual. Isso será averiguado", afirma Reynaldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão responsável pelo cálculo do índice. "Mas o movimento geral é uniforme: a qualidade do ensino municipal melhorou."

Maiquinique encabeça o grupo de 1.242 municípios considerados de investimento prioritário pelo governo porque tiveram os piores Idebs em 2005. Eles receberam a consultoria de pedagogos, que, a partir de visitas às cidades, elaboraram um plano de parceria entre a Prefeitura e o Ministério para a melhoria do ensino.

O plano de Maiquinique foi assinado em dezembro, mas quase não saiu do papel. No documento de mais de 40 páginas, o município s se compromete a acabar com a indicação política dos diretores e elaborar regras claras para a contratação de diretores e professores em período de estágio probatório.

A própria secretária da Educação, porém, admite que essas mudanças dificilmente serão implementadas. "Vivemos em um município pequeno, a indicação é uma questão quase cultural", afirma.



Mesmo que o município cumprisse todas as estratégias estabelecidas pelo plano, os alunos continuariam enfrentando dificuldades. Isso porque, embora duas consultoras tenham passado três dias na cidade, elas não constataram alguns dos problemas mais básicos da rede. Não registraram que parte dos alunos de 5ª a 8ª série tinha de se sentar no chão para assistir à aula porque não havia carteiras suficientes.

Nem que a escola rural de 1ª a 4ª série do povoado de Tinga oferece menos de quatro horas de aula por dia. Ou que seu professor, para punir quem não terminou a lição, coloca os alunos de castigo de joelhos no chão. "A função dos consultores não é fiscalizar, mas ajudar os municípios a melhorar", diz Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do MEC.

O convênio, até agora, não serviu nem para melhorar a comunicação entre Ministério e Prefeitura. Em pelo menos duas escolas de Maiquinique, as turmas de 3ª e 4ª séries ainda estavam sem os livros didáticos em junho. "O jeito é trabalhar com cópia, ditado e cartolina", diz a professora de 4ª série Gilvanete Alves de Souza. A turma de Gilvanete passa pelo menos metade das manhãs copiando lições e tarefas da lousa.

A secretária de Educação, Cléria, afirma que a distribuição dos livros, responsabilidade do MEC, falhou neste ano. "Eles entregaram os livros errados, estes que chegaram devem ser de outro município." Embaixo da janela de seu escritório, uma pilha de livros acumula poeira. Cléria diz que notificou o MEC sobre o erro por e-mail, já que a secretaria não tem telefone. "Os livros são enviados de dois em dois anos e, neste ano, não teve distribuição para essas séries", diz Sônia Schwartz Coelho, coordenadora-geral dos programas do livro no MEC. "As escolas sabem que devem pedir aos alunos que devolvam os livros no fim do ano para reutilizá-los no ano seguinte."

Enquanto o impasse permanece, a professora Gilvanete tenta resolver o problema sozinha. Ela ligou pessoalmente para uma editora, fez o orçamento e reuniu os pais para pedir que comprassem pelo menos os livros de português e matemática de seus filhos. Cada família desembolsou R$ 27. Mas nem todos puderam pagar esse valor.

No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2000, a cidade teve 60% de sua população classificada como pobre. Deuzuita de Jesus Santos, que tem duas filhas na turma de Gilvanete, disse que não tinha o valor necessário. Para as alunas não ficarem sem o livro, a professora Gilvanete comprou um exemplar para as duas dividirem. "Por que a mãe delas não pode usar o Bolsa-Escola para pagar esses livros?", diz a diretora da escola, Carlécia Viana de Moura - esquecendo-se de que a compra do livro é obrigação da rede de ensino, e não dos pais. "Outro dia a vi entrando numa loja de roupa, ela não gasta em livro porque não quer." Na casa de Deuzuita, os sete filhos dividem três cômodos com os pais. A família vive das diárias do marido, que trabalha roçando plantações de manga, e dos R$ 112 do Bolsa-Escola.

Em Maiquinique, é comum ouvir os professores e os diretores jogar a culpa dos problemas da educação sobre as famílias dos alunos. "O maior problema são os pais mesmo, que não se envolvem na educação dos filhos", diz Jucicássia Moreira de Souza, professora que alterna aulas na rede pública e na particular do município. Condicionada ao discurso, ela demora a lembrar da diferença que faz a estrutura das redes em que trabalha. "Na particular, a aula acaba sendo mais avançada porque os alunos têm livro, papel, caneta. E a lousa pega bem. Na pública, falta tudo e, como passo a maior parte do tempo ditando a aula, nem sempre dá para passar tarefa de casa."

Vai demorar para que os secretários e professores de municípios como Maiquinique assumam a gestão do ensino para si. É uma das conclusões de uma pesquisa desenvolvida entre consultores que visitaram mais de 300 municípios do Nordeste. "O maior problema é a cultura da política partidária", afirma Vanda Noventa Fonseca, pedagoga do Centro de Pesquisas em Educação e Cultura (Cenpec) e coordenadora da pesquisa. "Os secretários não têm autonomia para aplicar a verba da educação, que acaba sendo usada por prefeitos para fazer obras eleitoreiras."

Parte do fracasso no Ideb 2005 de Maiquinique pode ser atribuída a problemas na gestão de verbas. E o cenário pode ficar pior. Em 2004, os gastos da cidade foram auditados pela Controladoria-Geral da União, pelo sistema de sorteio de municípios. O relatório apontou desvio de 40% dos recursos do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) de 2003. Além do de metade da verba para a merenda escolar.

Os indícios de desvio somam R$ 130 mil. O orçamento da cidade em 2008 prevê menos de R$ 3 milhões para a educação. Segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, órgão ligado ao MEC, a Prefeitura ou o ex-prefeito têm até agosto para devolver o dinheiro. Se isso não acontecer, a verba para merenda escolar do município poderá ser cortada.

Fonte: http//eeducador.com

Junho 01, 2009

E o seu nível de corrupção, como vai?



Dizem por ai que todo homem tem seu preço. Há quem vá mais longe afirmando que alguns homens são vendidos a preço de banana. Sempre esperei, na vida, o dia da Grande Corrupção, e confesso, decepcionado, que ele nunca veio. A mim só me oferecem causas meritórias, oportunidades de sacrifício, salvações da Pátria ou pura e frontalmente a hedionda tarefa de lutar.. . contra a corrupção. Enquanto eu procuro desesperadamente uma oportunidade, as pessoas e entidades agem comigo de tal forma que às vezes chego a duvidar de que a corrupção exista. Mas, falar em corrupção, como anda a sua? Vendendo saúde ou combalida e atrofiada como a minha? Responda com muito cuidado às perguntas abaixo e depois conclua sobre sua própria personalidade: você é um corrupto total ou um idiota completo? (Não há meio-termo.) Conte 10 pontos para cada resposta certa (você é quem decide qual é a certa) e verifique depois o grau de sua corruptibilidade. Nota: Se você roubar neste teste, é porque sua corrupção é mesmo absolutamente incorruptível.

A) Você descobre que o chefe do seu departamento está com um caso complicado com a secretária do outro chefe em frente. Você: 1) Finge que não viu nada. 2) Diz à secretária que ou também está, nessa ou vai botar a boca no mundo. 3) Oferece o seu sítio ao chefe pra ele passar o fim de semana. 4) Bota a boca no mundo. 5) Insinua ao chefe que há a perigosa hipótese de a mulher dele vir a saber (e enquanto isso põe a promoção embaixo do nariz dele pra ele assinar).

B) Você acha que a Lei e a Ordem é uma mística social maravilhosa para: 1) Impor a lei e a ordem. 2) Acabar com a grita dos descontentes. 3) Grandes oportunidades de ganhar algum por fora. 4) Dividir o bolo entre os íntimos sem ninguém de fora piar.

C) A primeira vez em que você ouviu falar do escândalo de Watergate você disse: 1) Isso é que é país! 2) Como é que o governo americano permite uma imprensa dessas? Isso desmoraliza um país! 3) Eu não compraria um carro usado desse Nixon. 4) Isso jamais aconteceria entre nós. 5) Quanto terão levado esses caras pra se arriscarem dessa maneira?

D) Você, como representante oficial da fiscalização, comparece à apresentação de contas, em dinheiro, no Instituto dos Cegos. Fica surpreendido com o alto volume das arrecadações e em certo momento: 1 ) Diz : "Estou surpreendido com a miserabilidade dos donativos". E tenta enrustir algum. 2) Diz: "Como representante do fisco sou obrigado a reter 30 % de tudo porque esta arrecadação é totalmente ilegal". 3) Diz: "Teria sido até uma boa arrecadação se metade das notas não fossem falsas". 4) Disfarça bem a voz e diz, entredentes: "Todos quietinhos aí, seus Homeros de uma figa: Isto é um assalto!"

E) Você se demite do cargo de maneira irrevogável por insuportáveis pressões morais e absoluta impossibilidade de compactuar com a presente política da firma. Eles prometem triplicar o seu salário. Você: 1) Recusa, indignado, por pensarem que é tudo uma questão de dinheiro. Só ficará se eles derem também as três viagens anuais à Europa a que todos os diretores têm direito. E participação nos lucros retidos da companhia. 2) Diz que, evidentemente, isso e uma prova moral de que eles estão de acordo com você. O dinheiro, aí é definitivo como demonstração de confiança na sua gestão. 3) Pede para pensar 5 minutos antes de dar a resposta. 4) Explica que tem mulher e filhos e não pode manter um pedido de demissão feito, afinal de contas, por motivos tão irrelevantes.

F) Há uma diferença fundamental entre fraudar e evitar o imposto de renda. Quando você descobriu isso, você: 1) Ficou indignado com as possibilidades de os poderosos usarem tudo a seu favor. Como é que se pode escamotear um ordenado? 2) Começou a estudar furiosamente a legislação para descobrir todos os furos. 3) Tinha 11 anos de idade e estava terminando o curso primário. 4) Nunca mais pagou um tostão de imposto.

G) Você dá um nota de 10 pra pagar o jornal, no jornaleiro velhinho da banca da esquina, e percebe que ele lhe deu 50 como troco. Você imediatamente: 1) Corrige o erro do velhinho? 2) Reclama chateado aproveitando a gagaíce do vendedor: "Pô, eu lhe dei uma nota de 100?" 3) Chega em casa e manda todos os seus filhos comprarem vários jornais? 4) Bota o dinheiro no bolso e fica freguês?

H) Você teve que fazer um trabalho na rua, não pôde almoçar, comeu um sanduíche. Você apresenta a conta na companhia: 1) Um sanduíche — 3 cruzeiros. 2) Almoço — 32 cruzeiros. 3) Almoço com o representante da A&F Ltda. — 79 cruzeiros. 4) Despesas gerais — 143 cruzeiros.

I) Quando o desfalque dado pelo auditor geral (8.000.000 pratas) chega a seus ouvidos você murmura: 1) "Idiota, se deixar apanhar assim". 2) "Será que eles vão descobrir também os meus 10.000?". 3) "Se ele tivesse me dado 10% eu tinha feito o negócio de maneira que ninguém nunca ia descobrir". 4) "Eu fiz bem em não entrar no negócio".

Conselho de amigo:
Quando alguém, na rua, gritar "Pega ladrão!", finge que não é com você.


Texto extraído do livro "Todo homem é minha caça", Editorial Nórdica Ltda. — Rio de Janeiro, 1981, pág.60.

Tudo sobre Millôr Fernandes e sua obra em "Biografias".

Maio 25, 2009

Ladrões e como tratá-los



Amigo meu surpreendeu um ladrão em casa. Desceu pé ante pé a escada e acendeu a luz da sala, rapidamente. O ladrão, ao ver a luz acesa, saiu correndo. Passou pela porta, saltou um muro, ganhou a rua. Meu amigo correu atrás do ladrão até a porta da rua e, para garantir-se da fuga do ladrão, deu um tiro para o ar. Seu erro. O ladrão parou de correr subitamente e, deitando ódio pelas narinas, voltou como um raio em direção ao meu amigo, disparando também o seu revólver, e gritando com fúria: "Tiro não, seu cachorro! Tiro não!".

Trancando-se em casa e dominado pelo terror, meu amigo ficou refletindo que devia ter ferido algum ponto fundamental da ética larápia. Sentou-se à máquina. e fez então um código de como tratar ladrões. Ei-lo:


QUANDO, COMO E POR QUE SE DEVE ATIRAR NUM LADRÃO


Atire imediatamente:

1) Se for um ladrão que fala à maneira da literatura policial corrente. 2) Se ele, em vez de correr pra lá, corre pra cá: 3) Se ele provar que é vítima de uma estrutura social mal formulada e que não está fazendo mais do que lançar mão de algumas coisas que a sociedade lhe deve por tê-lo posto no mundo. 4) Se ele não parece disposto a despir sua melhor camisa esporte. 5) Se sua esposa ou filha achar que ele é um amor de ladrãozinho.

Evite atirar:

1) Quando o ladrão se encaminha para o quarto de seu tio rico, cujo único sobrinho é você. Nesse caso, evidentemente, cabe a seu tio o direito de atirar primeiro. É preferível deixar o ladrão um tanto chocado com a nossa não interferência, do que desagradar nosso tio quando é seu o legítimo direito de abater o larápio. Isso poderia levá-lo a um grande desgosto e, portanto, a nos deserdar. O fato de não interferirmos entre ele e o ladrão; muito ao contrário. 2) Se o nosso Terra Nova conseguiu agarrar o ladrão pelo gogó. Nesse caso, com a pontaria que temos, poderíamos ferir o cão e deixar solto o ladrão. E se você já viu um cão com raiva, fácil lhe será imaginar um ladrão hidrófobo. 3) Este ponto redunda no anterior. Você nunca deve disparar quando não for capaz de acertar um mosquito a cinqüenta metros. Os ladrões em geral acertam no olho esquerdo de pulgas a duas milhas de distância. (Medida inglesa). 4) Se sua esposa é uma Assistente Social. Ela pode aplicar sobre ele suas lições de "como reajustar o indivíduo à sociedade". 5) Se você está a beira da falência. Um ladrãozinho inopinado explica muito fundo ausente.

Peça ao ladrão para atirar antes:

1) Se você há muito tempo não tira férias. 2) Se você tem um ótimo seguro contra acidentes. Neste caso você pode até escolher o lugar do corpo em que o ladrão deve atirar, mediante uma comissão paga adiantadamente.

Além disso previne-se também que para entrar em luta com um ladrão não é necessário convidá-lo a escolher as armas antecipadamente; já que um ladrão prefere normalmente as que tem à mão. Outrossim não se deve dirigir a palavra a um gatuno antes de lhe apontar o revólver. Ele pode ficar emocionado se você lhe falar sem ser apresentado e sentir-se na obrigação de lhe dar uma salva de tiros. A natureza dos ladrões, sabem os entendidos, é muito reclusa.

Texto extraído do livro "Lições de um Ignorante", José Álvaro, Editor – Rio de Janeiro, 1967, pág. 119.

Maio 23, 2009

Tudo em você me lembra você. Exceto você



É claro que vocês acordaram hoje bem cedo com o pensamento único de ir até a banca de jornal mais próxima para comprar o dvd Uma Noite na Ópera, dos Irmãos Marx, daquela promoção da Folha, não? Não estou sendo pago para fazer propaganda, mas é que é um filme essencial, vem com livrinho e fotos, textos legais sobre Irving Thalberg, o cara que os resgatou do ostracismo e uma deliciosa história sobre a quantidade de roteiristas contratados para escrever o longa. Coisa fina. Se você curte as merdas que desenho e escrevo aqui, quando assistir o filme, vai ter uma ideia de onde tiro tanta bobagem. A frase que dá título a este post, por exemplo, é de um diálogo do Groucho com a Margareth Dumont, a grande vítima de suas frases. Ah, uma coisa que eu não sabia: Groucho bateu as botas quase no mesmo dia em que Elvis Presley. Mais ou menos o que aconteceu com o Mário Quintana, que morreu no mesmo dia que o Ayrton Senna. Em quais cadáveres vocês acham que a mídia resolveu concentrar todos os seus esforços?

Escrito por Benett. Fonte: http://blogdobenett.blog.uol.com.br/arch2009-05-17_2009-05-23.html

Maio 15, 2009



Na retista Profissão Mestre,participo da pesquisa de originou a matéria de capa. (maio/09)

Maio 13, 2009

Chapeuzinho Vermelho



Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde".

Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

Extraído do livro "Lições de Um Ignorante", José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 31

Tudo sobre Millôr Fernandes e sua obra em "Biografias".